Eleandro Vieira

Não temos tempo! Não é uma advertência, é uma lamentação. A maquinaria do relógio é a maquinaria do nosso próprio corpo. O essencial é adaptar-se, dizem. Aconselham. Ensinam. A matemática dos dias é não sobrar espaço. Para abraços, beijos. Para você. Tenha um agenda completa. Anotações no guarda-roupa, no computador, na cabeceira da cama. Não temos tempo! Não é uma advertência, é uma lamentação. Vejo a água da chuva escorrer pela janela de vidro. A noite me tomou completamente. Todos os dias aproveito cada minuto e sempre tenho algo para fazer, algo deixado para trás, prazos vencendo. E o meu prazo se tornando cada vez mais curto. Uns cabelos brancos já surgem na cabeça aos vinte e pouco anos. O que se quer da vida. O que queremos de nós. Já não sabemos muito bem o rumo que seguimos, mas seguimos. Como os pingos que batem na janela e escorrem ziguezagueando no vidro. Seguimos ziguezagueando na vida. A primavera do ano está próxima, apesar do frio ter aumentado essa semana. A primavera da vida, já não sei se passou, se virá, se estará aqui. O tempo é como essa neblina que cobre a cidade, não tocamos, mas ela molha todos os carros da rua e a nossa cara se corrermos por aí. E corremos, e corremos. Um tempo para fazer nada está fora de cogitação nesses tempos que chamam de pós modernos. Nada é feito para durar, dizia o pensador polonês. O amor, as relações, a poesia. Tudo é efêmero e o que era sólido se desmancha no ar. As flores florirão na primavera que se aproxima. Alguns ipês já mostram suas cores e quem reparou? Gostaria de reparar. Na beleza das flores, das árvores, no cheiro. O mundo nos convida para apreciá-lo de vez em quando, mas o tempo não deixa. É cronos comendo seus filhos. É o tic-tac nos devorando como o ogro da floresta atrás de carne humana. Tudo o que é sólido se desmancha no ar. Não temos tempo! Não é uma advertência, é uma lamentação. A semana chega ao fim, sem sabermos o que fizemos na segunda-feira. O domingo já não é mais tão comprido, mas ainda é triste no final da noite. O ano está quase no fim e o último dia de dezembro será igual ao primeiro de janeiro. Já não temos tempos para amar, beijar, abraçar. Para nós. Não é uma advertência. É uma lamentação.