Eleandro Vieira

Um girassol segue o sol nas manhãs que nascem preguiçosas. Eu sinto o cheiro da primavera que se aproxima. É a época do ano que mais gosto de caminhar pelas ruas, sentindo a renovação das árvores, dos dias, o céu azul, o sol forte, o clima bom.  Falar em girassóis, em sol, em luz, pode parecer difícil nesse ano que tanto nos surpreende, mas talvez seja, também, a oportunidade de falar sobre resistência e re-existência. E como o girassol amarelo segue a luz, sigamos o nosso sol guiados pela esperança. É certo que podemos chorar às vezes, ficar tristes, perder de vistas a alegria, gritar as dores ao mundo, mas jamais perder o amarelo da vida. Que o amarelo seja nosso. Eu sou porque você é. Eu sou porque pertenço. Não podemos ser humanos sozinhos. Só nos realizamos porque temos o movimento das pessoas ao nosso redor. Não podemos ser plenamente felizes com as lágrimas que rolam no rosto daqueles que fingimos não ver. Todos os nossos atos interferem no mundo e todos os atos das pessoas interferem em nós. Comunhão e individualização andam juntos. Isolamento social nesse momento é necessário. Isolamento humano nunca é. Se estamos nesse caminho agora, que mais parece um labirinto, que possamos atravessar juntos apesar de sermos diferentes, porque é essa diferença que faz todas as potencialidades humanas existirem. Mas uma coisa é universal: o amor. O amor pode nos salvar. “Tocar a vida”, como disse o presidente, é matar o amor. Não que não devemos seguir. Vamos. Mas não podemos aceitar essa banalidade da vida só porque não é a nossa ou a de alguém próximo.

O girassol venceu a terra fraca e mal adubada e cresceu do lado do muro da casa. Olha o sol e segue. Que possamos olhar o amor e seguir. Que não sintamos culpa pelo que somos. Que sejamos bravos para resistir e delicados a ponto de ver a beleza de cada um. Eu sou porque você é. Eu sou porque pertenço. Nós pertencemos a isso e por isso é que não podemos naturalizar a barbárie. Não somos assim. Devemos amar o brilho dos olhos que o mundo ainda pode nos proporcionar. E saber que o brilho dos olhos das outras pessoas também ilumina o nosso caminho. Isolar nossa humanidade e excluir a humanidade dos outros é matar o amor. Que ele viva, permaneça e seja, sempre. Amar as diferenças para que não tenhamos medo de sermos o que somos e para ter a certeza que também seremos amados por ser. Girassol, amor e esperança. Que isso nos faça seguir. Isolados socialmente agora, mas juntos, sempre juntos. Somos porque todos são e o futuro está dentro do presente. Cada ação e a coletividade que somos desenham esse futuro a cada dia. Que ele possa ser o melhor para nós e para o mundo todo.