Eleandro Vieira

Por algum tempo pensei que a pandemia do corona vírus seria o redentor do mundo. Estava enganado. Ingênuo sonhador de uma utopia que não transpassa de forma simples ao cotidiano. Até escrevi sobre isso. Solidariedade, um mundo melhor, o bem estar, a união, o amor. Mas e “os ninguéns, os donos de nada, morrendo a vida, fodidos e mal pagos?” Como na poesia de Galeano. Os ninguéns que já sofriam, sofrem mais, esquecidos na penumbra da fronteira do poder e das vaidades lutam sozinhos pela vida.

Até li algo sobre o que chamam de o “novo normal”. Besteira! Besteira daqueles que vivem em bolhas e que nunca andaram nas calçadas do mundo. A vida não é um conto de fadas, nem o mundo e nem o fim da pandemia será, principalmente no Brasil. Com um chefe do Executivo que prega a desunião, o conflito, que sobrevive pela morbidez da destruição, o que nos espera não pode ser outra coisa senão a dor. Os abismos sociais crescerão. A desigualdade que já nos aniquila dia a dia aumentará com a pressão de uma sociedade que aceita a doação de cestas básicas, mas não a política pública de distribuição de renda. Redimem suas culpas na caridade, mas não admitem que os ninguéns possam ter o direito a dignidade de comprar o que quiserem. “Os ninguéns que não têm cara, têm braços; que não têm nomes, são números. Fodidos e (re) fodidos”.

Se hoje chegasse aquele homem com a força do mundo nas mãos, distribuindo o pão, repartindo o peixe, transformando a água em vinho, defendendo prostitutas, expulsando os mercadores do templo, pregando o amor incondicional a todos, o perdão, a compaixão, seria, na ignorância dos dias atuais, taxado de comunista, pregado à cruz pela segunda vez, com Barrabás solto e rindo por aí. Comunista! Quem luta pela igualdade material e econômica, pela alegria e o bem estar de todos, pelo respeito ao outro, ao diferente, a pluralidade de ideias, a vida. Até hoje não entendo porque não os chamam de cristãos.

Mas não pense que perdi a esperança, ela faz parte de mim desde muito cedo quando me vi abandonado pelo mundo. Mas não sento no sofá esperando a morte e algo mudar por mágica. Me movo, incômodo, escrevo. O que eu faço não é muito. Mas é o que está ao meu alcance. Sei que tem gente que faz também. E faz muito mais do que eu. Há esperança. Por isso, tento ver o ensinamento de amar os outros como a si mesmo, como: você não pode ser plenamente feliz se o outro estiver sofrendo. Por fim, não esqueçamos, estamos sem Ministro da Saúde em meio a uma pandemia que já ultrapassa um milhão de infectados no país e que já matou mais de quarenta mil pessoas. “Os nadas, os ninguéns, os negados de tudo, correndo como coelhos, morrendo ao longo da vida, que custam menos que a bala que os mata”. Por eles, com eles, para eles.