Eleandro Vieira

 

Sempre quando penso em escrever algo sobre racismo e o povo negro - e o momento é oportuno - me vem á cabeça a notícia do Diário do Maranhão do dia 14 de novembro de 1888, uma segunda-feira, um dia após a abolição da escravidão no país. Depois de mais de trezentos anos de trabalho erguendo o país nas costas, a primeira notícia que surge é que o Império deveria agir “contra a vagabundagem e a ociosidade dos novos cidadãos”, exigindo repressão por meio da lei porque os negros teriam horror ao trabalho, inclinação ao vício, e precisariam de um controle policial rigoroso. Esse projeto proferido no Diário do Maranhão se concretizou. Quem o Estado mata no Brasil? O jovem negro e pobre.

A menina Ághata de 8 anos foi morta no Complexo do Alemão no Rio de Janeiro com um tiro de fuzil nas costas quando voltava para casa dentro de uma Kombi ao lado de sua mãe. O menino Marcos Vinicius de 14 anos foi morto com um tiro nas costas na Favela da Maré quando ia para a escola de mochila e uniforme. Antes de morrer Marcos teria perguntado a sua mãe: “Eles não viram que eu tava de uniforme?”. Evaldo dos Santos foi morto com 80 tiros alvejados contra seu carro pelo Exército quando estava indo a um chá de bebê com a sua família. Amarildo, pai de cinco filhos, foi detido na porta de sua casa e levado a uma Unidade de Polícia Pacificadora, depois disso, nunca mais foi visto. Há poucos dias, o menino João Pedro foi morto com um tiro de fuzil nas costas em uma operação policial no complexo Salgueiro. Todos negros. O projeto de um controle policial rigoroso exposto no Diário do Maranhão, um dia após a abolição, continua ainda hoje, 132 anos depois.

“I can’t breathe” (eu não consigo respirar), foi a frase proferida por George Floyd morto por um policial que o rendeu com o joelho em seu pescoço por 8 minutos e 46 segundos nos Estados Unidos. Pelo menos 25 cidades do país sofreram fortes protestos. O país está em chamas. A escravidão foi generalizada em todo o continente americano. O colonialismo e a escravidão andaram juntos. Em cada região a escravidão se deu de modo peculiar, mas todos baseados no trabalho compulsório do povo negro e o fim da instituição escravista não acabou com o racismo. No Brasil os negros foram relegados a própria sorte depois da Lei Áurea, excluídos da cidadania e expulsos para além da fronteira do trabalho assalariado que se iniciava e que foi preenchido grandemente por imigrantes europeus, escolhidos como opção (também) para branquear a população. Nos Estados Unidos até pouco tempo atrás o movimento negro lutava pelo fim da segregação racial, política que impedia a ocupação de negros em determinados espaços e ceifava oportunidades, negando aos negros a possibilidade de usufruir dos direitos civis: vida, liberdade e propriedade. O sonho americano acabou. A desilusão empurra parte da população da esperança ao desespero. O país que se autointitula o suprassumo da liberdade e da democracia no mundo mostra suas caras a cada momento. O império contemporâneo do planeta mata cidadãos do mundo e os seus cidadãos. O sonho americano e sua construção nas telas de Hollywood mostra sua realidade nua e crua na vida real do dia a dia de um povo inteiro. Vidas negras importam: nos Estados Unidos, no Brasil e onde quer que seja. Que sejamos sensíveis a ponto de não naturalizarmos a morte. “Não basta não ser racista, é preciso ser antirracista” (Angela Davis).