Eleandro Vieira

O tic tac do relógio não para apesar de estar nesta parede há mais de vinte anos. Esse tic tac agora se apodera da vida. Amansa, modela, doma. Esse tic tac suscita sentimentos: angústias, desespero, alegria, esperança. Esse tic tac nunca é na mesma velocidade apesar de jurarem de pés juntos. Na vida humana vinte e quatro horas não levam sempre o mesmo tempo. Um beijo, uma transa, uma morte, um soco. São tantas e tão diferentes essas horas. Mário Quintana diz que o tic tac dos relógios é a máquina de costura do tempo a fabricar mortalhas. Quem dirá que não? Me pego sentado escrevendo um texto e pensando no hoje e em como chegamos até aqui. São vários barcos e vários mares também. Não estamos todos juntos. Como naturalizamos a barbárie? Questões assim tomam minha manhã enquanto tomo mais uma cuia de mate neste dia frio.

É difícil dizer que somos uma só humanidade. Existem tantos abismos que nos separam que vão além da vida e da morte. Mas neste momento tá sendo até difícil perceber esse. Mais de vinte mil mortos. O tic tac do relógio é diferente para aqueles que enterram seus mortos. O tic tac do relógio nos quer útil, produtivo, domesticado. Juro que tento pensar que o momento pode ser como um anzol a puxar a consciência de que não podemos viver trancafiados em nossos mundos. Mas as vezes é difícil. Porém, uma coisa é certa: não existe fatalidade na história. Nada é natural. Tudo o que há foi construído e o amanhã não está a venda, já disse Ailton Krenak. A vida não se compra, apesar de ter que pagar para viver. Por isso, a indiferença é trágica. Quando escolhemos não defender a vida, escolhemos no mesmo instante a morte, porque ninguém escapa das consequências. Mas a gente se acostuma. Não deveria, mas se acostuma, e esse é o perigo. Uma morte aqui, outra ali, e quando se vê já são mais de vinte mil. Tic tac.

Encho mais uma cuia, vejo o vapor subir pelo espaço gelado de cinco graus celsius e fico ali um tempo. Tic tac. Certa feita, um general espanhol revelou como foi a estratégia de Franco para ficar tanto tempo no poder na Espanha: abaixo a inteligência, viva a morte! Eles sentem prazer na morbidez.  Matam ideias, aniquilam pensamentos. Mas o que eles tem é medo, são inseguros, covardes. E a indiferença é trágica. O silêncio é consentimento. É preciso falar. A vida não pode ser tão banal. Tic tac. O tempo passa e “quando se vê, já são seis horas, quando se vê, já é sexta-feira”, quando se vê, já cortaram nossas línguas, acabaram com nossa voz, fizeram-nos engrenagem do prazer pela morte. A indiferença é trágica. A cuia ronca. Sinto saudades do meu gato Abdias. O sol entra pela janela. As vezes é difícil ver a luz e tá tudo bem. Não tenha medo!