Há exatos 45 anos, no dia 21 de maio de 1975, a Tribuna do Paraná estampava como manchete a aparição da loira fantasma em Curitiba. O caso retratava uma mulher de cabelos claros que entrou em um táxi na Praça Tiradentes, com destino ao Abranches. Ao chegar no cemitério do bairro, o taxista percebeu que não tinha ninguém no banco traseiro. Ali deu início a uma das principais lendas urbanas da capital paranaense.

Em 2020, em meio a pandemia do coronavírus, a Loira Fantasma está de volta, mas nas redes sociais e em forma de história em quadrinhos. A lenda volta com novas curiosidades e mais mistérios, como por exemplo a história de que o táxi utilizado na carona sombria foi destruído em um acidente. Será? E o dono do carro que morreu assassinado meses após a aparição da loira. Folclore ou não?  A lenda segue viva na memória do povão curitibano.

O responsável pela pesquisa e ganhador da segunda edição do prêmio Histórias em Quadrinhos da Fundação Cultural de Curitiba é o desenhista Antônio Eder, de 49 anos. Ao lado do amigo André Stahlschmidt, ele está disponibilizando no Facebook alguns capítulos desta instigante história. A postagem chama-se Fantasmogênese: em busca da Loira Fantasma.

A lenda

O retorno para o ano de 1975 é fundamental para tentar descobrir o enigma da lenda. Duas semanas antes da lenda surgir, cinemas de Curitiba exibiram filmes de terror que deixaram pessoas perplexas. Além disso, a sociedade passava por momentos de dificuldade como a falta de insulina na cidade.

“O período era crítico e chegavam a ter dificuldade para comprar comida. O período no Brasil era complicado e tudo assustava. Nas pesquisas, percebemos que mais de 6 mil pessoas foram ao cinema para ver o filme Exorcista ”, ressaltou Antônio.

A história da loira causou alvoroço na cidade. As loiras passaram por maus bocados: ficaram marcadas e enfrentaram algumas dificuldades. Taxistas evitavam fazer corridas para alguém de cabelos claros e até mesmo prostitutas ficaram sem trabalho, pois os homens a evitavam.

“Deixou todo mundo desconcertado e até a frequência de aulas acabou diminuindo na cidade. Os radialistas na época liam Tribuna do Paraná e outros jornais, e a notícia se espalhou rapidamente”, conta Antônio. 

Tragédias aos envolvidos e medo dos taxistas

Lenda ou não, os principais envolvidos no caso da loira fantasma tiveram posteriormente dificuldades na vida. O dono do taxi morreu assassinado, o carro foi batido várias vezes até ter perda total e até os policiais que foram chamados pelo motorista no dia 20 de maio tiveram problemas.

“Todos os envolvidos tiveram um final de vida trágico. Teve suicida, um sumiu, outro foi preso por corrupção. O folclore ganhou vida e virou mito com livros, peças de teatro, curta metragem e até uma pimenta chamada loira fantasma”, disse Antônio.

Outra pessoa que lembra do fato é o taxista Ibiraci Andreta, 66 anos. Com 45 anos de profissão, começou no ano em que a loira fantasma surgiu em Curitiba. Inexperiente na função e com receio de encontrar algo estranho no trajeto, o taxista relata que o papo entre os companheiros era só esse: loira fantasma.

“Estava bem no início da minha carreira e só se falava da loira fantasma. A gente duvidava, mas tinha o receio de levar alguém para o cemitério. Lembro uma vez que fui levar uma loira até União da Vitória [sul do Paraná] e fiquei olhando direto no retrovisor interno para ver se ela iria desaparecer. Acho que é lenda de algum motorista que sonhou”, ironizou Ibiraci.

Tribuna do Paraná, publicou na edição do dia 21 de maio de 1975 a história da loira fantasma que virou Curitiba do avesso. Nas rádios, a manchete do jornal ganhou destaque logo nas primeiras horas do dia.

João Carlos da Costa, 64 anos, trabalhava na Tribuna como linotipista, ou seja, mexia com linotipos em uma máquina que teclava textos e laudas gráficas. Ele lembra que naquele dia o trabalho foi de superação de todos na redação.

“Não esqueço daquele momento, pois a cada dia surgia uma nova história e o jornal soube explorar bem todos os lados da notícia. Taxistas ligavam na redação que ficava na Rua Barão do Rio Branco, no Centro, falando que tinham visto a loira”, relembra o antigo funcionário.

 

 

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