Eleandro Vieira

 

No dia anterior a que escrevo este texto, cerca de 500 pessoas morreram da Covid-19 no Brasil. Lembro que quando na Itália morreram 500 pessoas em um dia nosso senso de lamentação, tristeza e compaixão saltava à vista e era amplamente divulgado com amigos, familiares, redes sociais e no íntimo de cada um de nós. O Brasil já tem mais mortes que a China, onde o vírus “nasceu” e iniciou sua jornada pelo mundo globalizado. Mas aqui banaliza-se a morte. “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”, frase proferida por aquele que se intitula o “líder supremo da nação”. Pobre diabo.

A filósofa Hannah Arendt escreveu sobre a banalidade do mal para tratar sobre a contribuição das “pessoas de bem” ao holocausto que exterminou com a vida de milhões de pessoas na Alemanha nazista. Escrevo aqui sobre a banalidade da morte de forma mais literária do que filosófica. Enquanto milhares de brasileiros labutam todos os dias na linha de frente do enfrentamento da pandemia arriscando suas próprias vidas, a morte de 500 pessoas é menosprezada pelo “líder supremo da nação”. Já foi né, fazer o que!? A banalidade da morte é perigosa. É como se a vida não fosse nada além de alguma coisa qualquer que pode ser perdida sem mais delongas. Como se a morte fosse uma consequência inevitável e não faz mal que “alguns” padeçam. Que não faz mal que covas coletivas sejam abertas em uma cena digna de guerras mundiais, desde que seja para enterrar velhos, pessoas fracas ou que vivem além da fronteira do poder. A banalidade da morte faz com que influencers coloquem suas vidas em risco e mostrem nas redes sociais seus afetos distópicos em momento de distanciamento social. “E daí? Lamento. Quer que eu faça o que?”

E o pior é a soberania do Estado,está impregnada por pessoas que demonstram seu poder na escolha de quem já é eleito para morrer. Só serão os idosos, fracos, números (coisa que os fatos não confirmam). Mas eles, eles tudo bem. A banalidade da morte tira do convívio humano o amor, os laços interpessoais, a história individual, a importância da pessoa em si e não da pessoa que produz algo e que importa para algum sistema. Pobres diabos.

A banalidade da morte mostra que muitos de nós já estávamos isolados antes da pandemia. Isolados em meio a uma multidão de pessoas que pouco importa. Isolados em nosso egoísmo e narcisismo refletido nas águas do individualismo doentio. Isolados em nossa satisfação carnal, emocional, material e espiritual. Como conceber estar bem consigo mesmo com pessoas sofrendo ao redor. Como conceber entrar em uma igreja enquanto odiamos de morte pessoas diferentes de nós só por serem diferentes de nós. Já senti ódio, inveja, cobiça, luxúria, afinal, de perfeito só aquele que se isola em si e acha que pode fazer o que quer com o lugar que ocupa. Mas a banalidade da morte ultrapassa nossa imperfeição humana. Já estávamos isolados antes. E daí? Lamento. Quer que eu faça o que?

A banalidade da morte é nosso caminho à desumanização. Mas há uma esperança, sempre há. Uma esperança de perceber que até nosso atos mais individuais são importantes e refletem em toda a comunidade e que nossa existência só acontece em uma coletividade, e uma coletividade pode mudar o modo de levarmos a vida. O sentimento de mundo pode ser crucial para valorizarmos o que antes ficava para trás no relógio da vida. O amor, as relações com o próximo, a paz, o bem estar de todos. No tic tac que nos mata a cada dia, banalizar a morte é fácil, afinal, sempre temos mais o que fazer. Mas ser submisso a uma estrutura que nos move nos retira aquilo que de mais importante temos e que pode trucidar com a banalidade: a reflexão crítica de nossas existências. Como disse o escritor moçambicano Mia Couto em uma entrevista, “a imbecilidade não será vencida num virar da folha”. A banalidade da morte cresce com o medo. O medo de defender a vida por nossas próprias palavras e ações. Que não tenhamos medo e que não fiquemos a mercê de salvadores do mundo, de salvadores da pátria ou do quem é messias só no nome. Que valorizemos a vida, a voz e a vontade de mudar o mundo.