Eleandro Vieira
Canalha! Canalha! Grita Tancredo nas dependências do Congresso Nacional no dia 02 de abril de 1964 quando Auro de Moura Andrade, presidente do Senado, declara vaga a presidência da República. Canalha! Três dias antes, na madrugada do dia 31 de março, militares golpistas fuzilam a democracia e parem uma ditadura baseada em sangue, tortura e concentração de renda. O que era pra ser passageiro durou 21 anos e trucidou a liberdade do povo brasileiro. Coronel Ustra, sádico, cruel e covarde, comandou, em São Paulo, o Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna (Doi-Codi). Foi um dos maiores torturadores da ditadura. Feriu, dissimulou, mentiu. Hoje, depois de mais de 30 anos do fim do regime, é defendido por profanos que se escondem atrás de uma cruz. Canalha! Aquele que defende torturador, aquele que defende o fim dos direitos humanos.
Quanta dor, quantas mortes, quanto sangue. Quantos amores interrompidos. Quantas mães que nunca mais viram o corpo de seus filhos. Quantos planos despedaçados de uma vida feliz para o futuro. Quanto amor ceifado. Quanta gente desumanizada para que os direitos fossem restabelecidos em nosso país. Como cantou Gonzaguinha, quantas cruzes sem nome, sem corpos, sem data, memória de um tempo em que lutar por seu direito é um defeito que mata. A constituição de 1988, não à toa, chamada de cidadã, foi uma vitória. Uma vitória do povo. Garantiu todos os direitos em cláusulas pétreas, que não podem ser modificadas por emenda, que foram rasgados com o Ato Institucional nº 5 em 1968. Perverteram o direito para legitimar suas ações autoritárias. Cassaram mandatos, acabaram com o congresso, demitiram funcionários públicos, fecharam instituições, perseguiram e mataram estudantes, professores, jornalistas, músicos. Tinham ódio à alegria. 21 anos de chumbo.
A ameaça comunista - construída há muito e fortalecida com as reformas de base propostas pelo presidente Jango (reforma agrária, reforma fiscal, reforma urbana) - foi a desculpa para o golpe. Eliminar subversivos era palavra de ordem. Todos deveriam pensar de forma igual e se fosse possível, nem pensar. 21 anos de cérebro de chumbo. A música foi uma das formas de resistência, como vimos com Gonzaguinha. Uma outra me vem à cabeça agora e se chama Milho aos Pombos, de Zé Geraldo: “isso tudo acontecendo e eu aqui na praça dando o milho aos pombos...”. É um alerta. Às vezes as liberdades que temos são tiradas de forma sutil sem que percebamos, como no poema de Brecht: primeiro levaram os negros, depois os operários, os miseráveis, os desempregados, mas como não era nenhum deles, não me importei. Agora estão me levando, mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo. Quem mandou matar Marielle?
A democracia é a forma de governo que podemos expressar de forma plena nossa liberdade, nossa voz, nossas opiniões, nossa arte, nossas vontades, nossos desejos, porém, não esqueçamos que democracia é incerteza, é construção constante, é participação de todos. O autoritarismo não, esse é certeza, é cinza, é cabeça oca, é boca sem voz. Que não sejamos covardes e tenhamos coragem de construir com a ajuda de nossas mãos uma sociedade livre, igualitária, feliz e justa. E por fim, cito Maiakovski: podemos não estar alegres, é certo, mas também por que razão haveríamos de ficar tristes? O mar da história é agitado, as ameaças havemos de atravessá-las e rompê-las ao meio... Ditadura, nunca mais!