"Uma das maiores e mais antigas paixões brasileiras é o café. Para começar o dia, após as refeições, no intervalo do trabalho ou antes de dormir; puro, com leite, amargo ou adoçado, a bebida é quase onipresente na cultura brasileira. E os números atestam isso.

Segundo levantamento da empresa de pesquisa Euromonitor, ao longo de 2019 cada brasileiro consumiu uma média de 890 xícaras de café, o equivalente a mais de duas por dia. Com 1,2 milhão de toneladas, o país é o maior consumidor mundial de café quente, à frente dos Estados Unidos (que assumem a dianteira apenas quando incluído o café gelado).

No tocante a quantidade, não se discute a força do café no mercado nacional. De uns anos para cá, no entanto, a qualidade passou a entrar em cena também. E, novamente, os números estão aí para comprovar. No fim do ano passado, o banco holandês Rabobank divulgou seu estudo anual The Brazilian Market Coffee, em que analisa o mercado cafeeiro no país. O principal destaque do estudo são os cafés especiais, cujo consumo deverá crescer 22% neste ano e mais de 34% até 2024.

Antes de mais nada, é importante responder a uma pergunta: o que são cafés especiais? “Cafés especiais são grãos isentos de impurezas e defeitos que possuem atributos sensoriais diferenciados. Estes atributos, que incluem bebida limpa e doce, corpo e acidez equilibrados, qualificam sua bebida acima dos 85 pontos na análise sensorial. Além da qualidade intrínseca, os cafés especiais devem ter rastreabilidade certificada e respeitar critérios de sustentabilidade ambiental, econômica e social em todas as etapas de produção”, define a Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), entidade que reúne produtores, empresas e colaboradores envolvidos com o segmento.

A BSCA tem registradas 45 variedades de cafés especiais, produzidas em 31 regiões por todo o Brasil, de Norte a Sul. Isso sem contar as importadas. Mas a escolha do grão é apenas uma parte do processo, que envolve também a extração. Aí entra mais uma variedade de métodos, que vão além dos tradicionais coadores ou do espresso. Hario V60, French Press, Aeropress, Chemex são alguns dos nomes que se referem a diferentes técnicas e equipamentos usados para extrair o máximo de sabor de cada café.

“O fluxo constante de lançamentos de novos produtos e inovações deve ajudar esse segmento [de cafés especiais] a ter um desempenho muito bom. Em casa ou fora de casa, o Brasil tem um cenário promissor para o consumo de café, especialmente para os blends premium”, afirma o analista Guilherme Morya, autor do estudo do Rabobank. Uma conclusão visível no dia a dia: não apenas pelo número crescente de cafeterias nas cidades, mas pela oferta maior de diferentes tipos de café também em panificadoras e nas prateleiras dos supermercados.

Consumidor mais exigente     

Para se ter uma ideia da adesão dos brasileiros aos cafés especiais, em 2012 foram consumidas 231 mil sacas (60 kg) do produto, segundo o Rabobank. No ano passado esse número foi quase cinco vezes maior, de 981 mil. Em 2023, a estimativa é chegar a mais de 1,8 milhão de sacas. Mas o que explica esse crescimento acelerado, mesmo em um período de crise econômica e se tratando de um produto mais caro do que o café consumido habitualmente?

Formado em Direito, Marcelo Franck trabalhou na área por mais de 20 anos, até que em 2015 decidiu transformar o hobby em profissão, criando sua marca de cafés especiais, a Franck’s Ultra Coffee. Mais do que isso, tornou-se pioneiro no Brasil em produzir cafés maturados em barris de destilados, como whisky, rum e cachaça.

Para ele, o crescimento do setor está associado ao comportamento do consumidor, que se mostra mais atento à qualidade. “A especialização do paladar começa quando você experimenta pratos bem elaborados, receitas complexas e percebe a qualidade do insumo. O que está acontecendo com o café é o que aconteceu com a cerveja alguns anos antes, quando marcas diferentes apareceram e as pessoas começaram a se interessar”, diz.

Léo Moço, do Café do Moço: excelência começa no plantio e na colheita. | Priscilla Fiedler
Com mais de dez anos de história, o Café do Moço é uma das referências nacionais em cafés especiais, comandado pelo barista tetracampeão nacional Leo Moço. Carioca radicado em Curitiba, ele vê o consumidor cada vez mais exigente.

“Ele está cada vez mais antenado quanto ao tipo de café, a região proveniente dos grãos e as formas de preparo. Isso explica a excelência no preparo da bebida, que começa com o aperfeiçoamento do plantio e da colheita, passando pela qualificação dos profissionais e da grande variedade de métodos e técnicas de preparo”, avalia.

Mercado em expansão

O estudo do Rabobank indica 2020 como um ano promissor para novos investimentos na área de cafés especiais. “Com a economia em recuperação, aumento do investimento estrangeiro e conscientização do consumidor, todos trabalharão juntos para aumentar o valor do mercado cafeeiro brasileiro. Esse ciclo virtuoso deve atrair ainda mais investimentos para a indústria do café no Brasil”, diz Guilherme Morya.

A rede Sterna Café foi criada em 2015 com duas lojas em São Paulo. Hoje, são 67 lojas em atividade e outras 18 em obras, espalhadas por 13 cidades em cinco estados. Curitiba deve ganhar a primeira unidade ainda no primeiro semestre.

Deiverson Migliatti, do Sterna Café: consumidores querem produto de mais qualidade.
“As pessoas estão descobrindo a experiência de tomar cafés feitos com diferentes grãos, usando métodos diversos. Com mais acesso a informação, os consumidores querem um produto de mais qualidade”, afirma Deiverson Migliatti, fundador da empresa que se aventurou em várias franquias até criar a própria marca.

A perspectiva da Sterna é encerrar 2020 com 100 lojas abertas. Em Curitiba, outras redes também já investiram ou têm planos de ampliar os negócios. Há algumas semanas foi inaugurado o Café do Moço, cafeteria com 300 m², capacidade para 130 pessoas e ambientes diversificados.

O Franck’s Ultra Coffee, que desde 2017 funciona em uma loja no bairro Ahú, já tem projeto para abertura de uma nova unidade. “Estamos com um crescimento médio de 10%, que em alguns meses chega a 100% entre um ano e outro”, destaca Marcelo Franck.

Relação custo-benefício

Como todo produto de maior qualidade, o café especial tem um preço mais alto para o consumidor do que o café tradicional. A oferta cada vez maior, no entanto, vem tornando mais acessível a bebida que antes era artigo de luxo.

“Quando o consumidor descobre que 90% do café moído não é puro, ele quer tomar uma bebida com mais qualidade, que ele sabe que tem rastreabilidade. Muitas vezes isso não significa pagar caro, você pode tomar uma xícara por R$ 4,90, que é mais barato que na padaria”, ressalta Deiverson.

Para Marcelo, não é o café especial que é caro. “O café ordinário que é barato demais porque é refugo. Mas o crescimento do mercado de cafés especiais comprova que o consumidor está enxergando a relação custo-benefício. Quando ele percebe a diferença na qualidade de um produto para outro, consegue enxergar o valor que isso tem.”"
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