Eleandro Vieira

Naquele tempo em que tudo era possível. Quando éramos poetas, mágicos, jogadores de futebol, princesas, modelos, e felizes. E quando passeávamos de mãos dadas. Falo tanto em mãos dadas porque arrisco dizer que é difícil achar algo mais bonito que mãos dadas. Agora no banheiro sujo do bar alternativo com músicas estranhas e gente bêbada leio na parede: “melhor do que ser feliz, é viver”. Vinicius de Moraes me castiga até em banheiros quando tudo já parecia fim de noite, e de um século, e de um gigante que adormecia entre tantos sorrisos, e copos, e gritos, e falas. Naquele tempo em que tudo era possível não voltamos mais. Como se tivéssemos passado por um funil, caímos em um lugar qualquer e aqui estamos, estreitos. Crentes e rentes à superfície da Terra e as banalidades do poder e da TV que não para de falar bobagens que metem medo, fome, ódio, risos e lágrimas que escorrem por todo o mundo e não acabam jamais, porque a Terra é redonda. No tempo em que tudo era possível ouvia vozes dizendo que o mundo seria vencido. Hoje ouço vozes exigindo que não levante a voz. Mas eu levanto, às vezes. Eles ficam com medo, eu sei. Não querem perder a propriedade da razão. Donos de um mundo em extinção. Melhor do que ser feliz, é viver. Os antigos navegadores do desconhecido Atlântico diziam que navegar é preciso, viver não é preciso. Fernando Pessoa por dedicar toda sua vida e exaltar o sacrifício da existência em nome de sua escrita que o consolidou como o maior poeta da língua portuguesa de todos os tempos, segundo meu critério subjetivo, já que não leio críticas literárias, afirma que viver não é necessário, necessário é criar. No tempo em que tudo era possível, criávamos. Monstros, heróis, reis, rainhas, espadas feitas de pau e até capas que voavam com as toalhas novas da avó. Crescemos e não criamos tanto. Meu primeiro chefe me falava que criar não era preciso, era preciso copiar. Aquilo sempre me incomodou. Sempre. Mas outro dia achei que ele estivesse certo e agora não sei ao certo se é ele ou eu o dono da solução da equação. No tempo em que tudo era possível. Até sonhávamos com um amor eterno, com uma praia de ondas bravas no amanhecer de uma manhã domingo, e com nossos problemas resolvidos por decreto, como escreveu Leminski. Bem no fundo, bem lá no fundo. Mágoas anuladas, remorsos extintos. No tempo em que tudo era possível. Mas ainda prefiro Vinicius: “melhor do quer ser feliz, é viver”. Pode ser um alento, uma motivação, uma frase de boteco. Mas, quem é que vai dizer o contrário?