O relógio mata
SOCIAL
05 de Agosto de 2019

Historiador e cronista

Sentado na cozinha em uma manhã fria do inverno de agosto. Minha vó segura a cuia de mate que mostra o vapor da água quente. Como ela está velha, penso eu. Olho para o relógio de parede na parede branca de madeira amarelada pelo tempo. Aquele relógio sempre esteve ali e já viu mais de duas décadas de minha vida, ditando o ritmo da existência da casa. Olho para ele e penso em Mario Quintana: o mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações da minha família. Quantas vidas o relógio que faz tic tac bem na minha frente há mais de vinte anos matou eu não sei, mas sei que ele me mata um pouco a cada dia, às vezes com tortura, às vezes com alegrias efêmeras: ele mata. O tempo sempre foi alvo de imensos mistérios e tentativas de desvendamentos. São cientistas, filósofos, historiadores, poetas. O início, o fim, o meio. Entre ampulhetas e smartphones: qual minuto demora mais? Um minuto de dor pode parecer um século, um minuto de beijo pode ser um estalar de dedos. Talvez nunca chegaremos a um consenso. Os historiadores sabem que o tempo não é o mesmo nas diferentes culturas, sociedades, épocas e nem o mesmo para os sujeitos. Para os camponeses medievais do século dez a precisão do tempo pouco importava. Inverno, verão, outono, primavera: as estações regulares ditavam o trabalho, a plantação, a colheita, a vida. Permanência e repetição. Tempo cíclico. Um círculo que depois de encerrado volta ao ponto inicial e assim sucessivamente. As poucas datas que mostravam a existência do calendário eram escritas pela Igreja por meio das festividades: a Páscoa, por exemplo. No século dezoito, a Revolução Industrial transforma a Inglaterra e com ela o mundo todo. As fábricas ditam o ritmo e cada vez mais acelerado, cada vez mais, cada vez mais. O consumo é o cerne da existência dos industriais, a ponto do maior império do mundo exigir o fim da escravidão: para aumentar o número de consumidores. O homem moderno tem outra sensibilidade em relação ao tempo. A medida torna-se cada vez mais precisa e cada vez mais necessária para a vida se tomarmos como base a Europa Ocidental que expandia suas conquistas e explorações pelo mundo. Colombo chega à América em 1492. Em 1500 é a vez do Brasil ser conquistado. O tempo é contínuo, irreversível, linear. Os relógios são cada vez mais carregados junto ao corpo e cada vez mais expostos em paredes como um ditador cruel do cotidiano.

Apesar decada qual enxergar o meio dia da porta da sua casa, como no provérbio africano, não podemos escapar do nosso tempo, estamos imersos nele e ele está presente em tudo, como a neblina que encobriu os carros na rua na noite passada ou como o orvalho que molhou o pé de cerejeira bem na frente da minha janela. O tempo é a própria atmosfera que ronda nossa existência onde quer que estejamos. Nada escapa a ele. Como Cronos, deus dos cronômetros, dos segundos, dos centímetros, deus do tempo que devora seus filhos para que não tomem seu lugar no mais alto grau da mitologia grega. Cronos, o devorador de destinos e inocências. As crianças o odeiam. Rubem Alves escreve sobre outro tipo de tempo. O tempo do amor, em que a vida só é marcada com a vida. Em que o tempo só é medido com o corpo. Tudo flui, já dizia Heráclito e ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio. As águas nunca são as mesmas. O que marca a eternidade não é o infinito, não é um tempo sem fim. Tudo o que é belo termina: o beijo da mulher amada; o sorriso do filho; o pôr do sol nas montanhas. A eternidade é aquilo que a memória amou. Um segundo de amor pode ser o instante que falta para entendermos o que é eterno. Assim como Mario, Rubem Alves também me faz pensar. Nestes dias em que o tempo do século XXI tenta devorar nossas vidas, quantas eternidades você já tem? Antes que seja tarde, que sejam eternos os momentos: uma caminhada no final da tarde; a chuva na vidraça; as mãos entrelaçadas na praça da cidade; o abraço no final do dia; a noite quieta e solitária. Não perca tempo com reuniões ou com a burocracia fria da existência, porque como diria Mario Quintana, outra vez: Quando se vê, já são seis horas! Quando se vê, já é sexta-feira! Quando se vê, já é Natal… Quando se vê, já terminou o ano… Quando se vê perdemos o amor da nossa vida...Tiro os olhos do relógio na parede branca e velha. Olho para minha vó, ela ronca a cuia e eu sorrio. Enche outra vez e me passa. Ainda bem que ela está comigo, cada vez mais bela, cada vez mais velha, cada vez mais...

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