Eleandro Vieira

 

Os momentos ruins não são de todo inúteis e não servem somente à tristeza. Ou talvez sejam, talvez sirvam, mas só se não soubermos aproveitá-los. Meditar, orar, pensar, refletir. A solidão é um dos sentimentos mais oportunos para que possamos crescer e para que possamos pensar sobre nós mesmos.

O que nos faz bem? O que nos faz felizes? O que queremos? A solidão é um dos sentimentos mais oportunos para que possamos refletir sobre a própria solidão. Por que nos sentimos sozinhos em nossa própria companhia? Por que nos sentimos sozinhos em meio à uma multidão? É difícil crescer. E dói. Como o músculo levantando peso na academia penando até crescer um pouco. Como anos de estudo para se ter uma profissão. Como milhares de repetições de um golpe de Muay Thai para se chegar a perfeição. E depois de ter crescido, não podemos mais parar. Caso contrário o músculo volta a ser o que era. Ficamos desatualizados na profissão. Esquecemos os detalhes do movimento. Por isso, aproveitemos a solidão para nos conhecer e crescer, mesmo que doa.

Na correria do cotidiano, neste mundo intenso em que vivemos, em que informações nos vêm de forma quase imediata e somem de forma efêmera, é difícil pararmos para pensar no que realmente é e o que não é importante. E isso para todos. O mundo exigindo cada vez mais de nós. Mais curtidas, mais produção, mais dinheiro, mais trabalho, mais tempo. Mas a vida é uma só. E ela passa. Às vezes mais rápido do que os ponteiros do relógio.

É louco pensar que o tempo passa de acordo com a vida que vivemos e não de acordo com uma cronologia exata. Pode parecer doideira, mas basta pensar em quando éramos crianças. O Natal demorava uma eternidade para chegar. Hoje nos assustamos quando ele chega. Esperávamos ansiosos para receber um presente. Para enfeitar o pinheiro. Hoje nem colocamos as luzes na frente de casa. O tempo é subjetivo. Por isso, é bom que saibamos gastá-lo de forma consciente. Que guardemos pelo menos um pouco dele no dia para nós, para fazer o que gostamos.

Confesso que nunca gostei muito do final do ano e do natal. Um pouco por pensar que não teria uma família vendida nas telas da TV para passar junto, depois por saber que muita gente não iria ganhar um brinquedo como eu ganhei durante toda a infância. Bicicletas, carrinhos, bonecos. Nunca grande coisa, mas sempre feliz. Mas ultimamente tenho pensado muito e mesmo sabendo que ainda não terei uma família como a vendida na televisão, e que na medida do possível posso comprar algo para dar de presente às pessoas que amo, faço do final do ano um momento de intensa reflexão.

E esse ano o segundo sentimento que mais me vem à cabeça e ao coração é a gratidão. Gratidão por aqueles que entraram na minha vida, que permaneceram, que mostraram alguma coisa e se foram, que falaram alguma coisa e calaram, que mostraram algo que nunca tinha visto. E penso que deveríamos ser gratos até mesmo pelas pessoas que nos fazem mal. É difícil, mas veja o quanto podem nos ajudar. Podem nos fazer crescer espiritualmente. Ensinar a ter paciência, a saber ouvir sem nos enfurecer e até mostrar nossos egos que nos fazem ficar mal, magoados, tristes. Em muitos casos, a culpa nem é delas, é nossa. Também existem situações em que somos falhos em não gostar de alguém ou de alguma atitude sem essa pessoa ou essa atitude ter a ver conosco. A gratidão. Um dos sentimentos mais lindos que podemos ter e que nos aproxima de pessoas que queremos estar perto. Que sejamos gratos. A pessoas, aos sentimentos, às emoções, às situações, por que tudo, tudo nos fazer crescer, basta que aproveitemos.

Por fim, a primeira coisa que me vem à cabeça e ao coração neste final de ano é a esperança. Não a esperança de sentar e esperar a morte chegar, como diria Raul. Mas a esperança de agir, de fazer acontecer. Pode ser que muitas coisas que desejamos e corremos atrás não sejam realizadas, mas ao menos não ficaremos com o sentimento de não ter tentado. O pior sentimento e o que mais nos aproxima da morte é a covardia. Por isso, que tenhamos esperança, por mais que as coisas estejam ou sejam difíceis. A esperança de que seremos melhores e que o mundo também. A esperança que nos embala com fé, vontade e atitude. Que tenhamos esperança em um mundo melhor, como o menino Jesus com a sua coragem de pregar o bem, a fé e o amor, mesmo com toda a maré contrária, mesmo com o chicote cortando suas costas, mesmo com os pregos furando suas mãos e seus pés na cruz. Ele pregou o perdão no último suspiro. Que tenhamos esperança na vida, no mundo e em nós.