"Morei por um ano com uma família mexicana, quando era adolescente. Sentada à mesa, durante nossa primeira refeição juntos, diante de um prato cheio de arroz alaranjado, frijoles e carnitas, percebi que algo estava faltando: garfo e faca! Como eu já tinha recebido um tour de onde cada utensílio ficava na cozinha, levantei e, enquanto pegava meus talheres, perguntei timidamente se “mais alguém precisava”. Todos me olharam como se aquela fosse a melhor piada já contada.

Mais tarde fui entender que o principal talher mexicano é a tortilla – de farinha ou milho –  e que, no máximo, a outra mão de quem come segura uma colher, usada mais para empurrar o alimento para dentro da tortilla do que para levá-lo à boca.

A forma como comemos e os utensílios que usamos para fazê-lo dizem respeito a identidade cultural à qual pertencemos, mas isso não significa que esses hábitos sempre existiram da maneira como os conhecemos hoje. Segundo a professora e especialista em história da alimentação Maria Cecília Pilla, eles se modificam sob influência do tempo e do espaço; alguns caem em desuso e outros são mais recentes do que parecem ser.

O próprio garfo é considerado uma inovação tecnológica, se comparado aos demais talheres. De acordo com Bee Wilson, no livro “Pense no garfo! Uma história da cozinha e de como comemos”, o primeiro registro que se tem do utensílio é do século XI, mas seu uso foi considerado estranho até o século XVII e implementado apenas no XIX.

Mesmo após dois séculos de uso contínuo desse utensílio e, ainda que para nós, brasileiros, não haja coisa mais natural do que comer com garfo, ao visitarmos a China, por exemplo, a realidade é completamente diferente e tem nome: fachi.

Wilson narra que da primeira vez que norte-americanos experimentaram os “palitinhos de madeira” como talheres, em 1819, os compararam a agulhas de tricô e não conseguiram terminar a refeição. Atualmente, esses utensílios milenares são conhecidos no mundo todo, ainda que muitas pessoas, pouco acostumadas, não saibam usá-los.

Em um mundo conectado

“O talher que se usa, a forma de se sentar à mesa ou qualquer outro hábito que se manifeste durante uma refeição, indicam traços históricos de uma cultura. Hoje, é claro, a globalização mescla culturas diferentes, mas isso faz parte da mudança a qual qualquer comportamento está sujeito a sofrer. Faz parte”, afirma Maria Cecília.

De acordo com Camila Teixeira em seu estudo sobre cultura alimentar, comer é um hábito construído a partir de experiências socioculturais que se baseiam em sabor, custo, acessibilidade ou conveniência do alimento. No entanto, a globalização exerce um grande papel nas mudanças dessa prática. “Com a globalização temos uma perda na identidade cultural alimentar uma vez que tanto a produção, quanto o consumo aumentam consideravelmente e giram em torno de alimentos “modificados e industrializados”.

Outra pesquisadora da área, Rossana Proença, diz que produção de alimentos em larga escala e a sua conservação por longo tempo, bem como a viabilidade global de transporte e negociação desses itens, vêm ocasionando a ruptura espacial e temporal da produção e do acesso. Por esse motivo, o consumo de alimentos fora da estação é comum, assim como a falta de conhecimento sobre suas origens e/ou ingredientes.

“As pessoas já não sabem o que comem”, explica Maria Celícia. “Atualmente, nos deparamos com uma tentativa de resgatar essa origem, mas continuamos sobrecarregados e vivendo uma rotina na qual nos falta tempo e isso muda nossa relação com a comida”.

De onde vêm os nossos hábitos?

Margaret Visser, em seu livro “O ritual do jantar”, escreveu que as boas maneiras à mesa são tão antigas quanto a própria sociedade. Muitas delas, atualmente reproduzidas quase inconscientemente, são resultados de ensinamentos passados de pais para filhos e indicam “boa educação”. Não é para menos que, quando criança, você provavelmente cansou de ouvir frases do tipo “não coloque os cotovelos na mesa” ou “não fale de boca cheia”.

Esses ensinamentos estão ligados ao momento da refeição porque ele foi, desde sempre, o momento de reafirmar papéis familiares, comenta a historiadora Maria Cecília. “Vários desses hábitos não fazem mais sentido, mas têm uma explicação histórica”.

O famoso ditado “quem senta na ponta paga a conta”, por exemplo, vem da Idade média, quando o anfitrião do banquete sentava no local onde poderia ser visto por todos os convidados. “Atualmente, ao irmos a um restaurante, senta na ponta quem quer, mas é comum reservarmos o lugar à pessoa mais velha ou de maior autoridade e isso foi herdado por nós desde aquela época”, ela explica.

Outros hábitos têm explicações menos óbvias e dependem do lugar onde se está no mundo. A historiadora ressalta que atualmente, é difícil definir origens concretas para tudo. “Nós brasileiros, principalmente, somos uma mistura de culturas. Em alguns casos, é mais interessante abraçar essa diversidade do que procurar a explicação óbvia dela”, diz Maria Cecília."

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