Eleandro Vieira

 

E o que vocês faziam no primeiro mês de namoro? Por que não dançam mais nas noites de sábado? Por que fazem tanta conta? Por que não fazem amor com aquela energia toda que era de deixar o universo em confusão? Por que não gritam na hora do gozo? Por que não provocam um ao outro? Por que não compram um pote de sorvete e assistem um filme nas tardes de domingo? Por que não tomam cerveja no bico da garrafa como dois adolescentes que não respiram outra coisa senão amor?

Agora temos filhos. Uma casa para cuidar. Boletos para pagar. Um sofá para trocar. Um carro para arrumar. Um trânsito para enfrentar todo dia. Um trabalho para ganhar um salário e mostrar que vencemos na vida. São várias as desculpas que poderiam me dar. Mas, quando foi a última vez que não precisaram de mais ninguém a não ser um do outro para serem felizes? Quanto vale uma vida juntos sem a delícia de sair da rotina? Tudo muito pragmático, tudo muito mecânico, tudo muito superficial. Um papel assinado vale mais do que suar no carro em uma noite quente? Um anel no dedo vale mais do que lua observando suas mãos dadas? Namorados para sempre! Deveria ser o primeiro e eterno decreto de um casal.

Eu sei, eu sei, é difícil. Pode ser coisa de caras que gostam de ler poesias em noites estreladas. De caras que levam a namorada para olhar o céu. Para caminhar nas pedras da praia. Que escrevem versos quando menos se espera. Que penduram fotos na parede do quarto. Que pensam nos olhos castanhos da namorada quando o sol aparece na janela do quarto nas manhãs de primavera. De caras que pensam que o amor não pode ser monotonia. Mas, a vida já é tão assim, não é? Metas à cumprir, tarefas a fazer, planos no papel, gráficos no computador.

O passado é algo que não existe mais, mas as memórias ainda ficam. Então pense em quando se ligavam e falavam por horas. Quando trocavam mensagens de amor. Quando mandavam áudios cantando. Quando choravam um para o outro quando o medo aportava no coração. Quando imaginavam uma praia, o sol, o amor e alguém para amar. Quando tomavam banho juntos no chuveiro. Longe de mim escrever manifestos sobre alguma coisa, mesmo tendo escrito alguns nestes anos. Se alguém leu, eu não sei. Escrevi um, tempos atrás, para o beijo. Lembro que as palavras lá foram outras, mas com sentidos não tão diferentes de agora. Essa minha insistência no amor é coisa que perpetua.

Enfim, se ainda não se cansou destas palavras na tela e chegou até aqui, pense em um convite. Pense agora! Algo que não faz há anos e fazia com a pessoa que ama. Não deixe que nada entre na sua cabeça para impedir que isso aconteça. Pode ser um sorvete na praça; uma cerveja no bar; uma caminhada no parque; uma transa no motel; uma dança no bailão, ou, quem sabe, um beijo demorado, sem pressa, sentindo todo o molhado da boca e a energia que os uniu. Ou quem sabe, melhor, pense em algo que falavam em fazer e nunca fizeram. Aquela viagem para aquela praia que gostariam muito de conhecer. Aquele restaurante na cidade vizinha que nunca foram porque é muito caro. Aquele show que prometeram ir mais uma vez. Aquela esquina que combinaram sentar e tomar um garrafa de vinho até os dentes ficarem vermelhos.

Enfim, mais uma vez, longe de mim querer escrever manifestos, apesar de já ter feito alguns, mas... quando foi a última vez que fizeram algo sozinhos e por inteiro? Eternos namorados! Deveria ser o primeiro e o eterno decreto de um casal.