Os empregados dizem que a companhia tem uma política bastante restritiva de folgas e que até situações de luto podem ser motivo para dispensa

Condições de trabalho são determinantes para o bem-estar dos integrantes de uma equipe de trabalho. Especialmente em momentos de fragilidade pessoal. Alguns contratados da Amazon em Sacramento, na Califórnia (EUA), têm lutado por condições melhores nesse aspecto.

Isso porque uma colaboradora da empresa foi dispensada logo após a morte de sua sogra. A companhia alega que ela ultrapassou os três dias concedidos nesses casos (já que esteve no hospital no período em que a parente ficou internada).

Logo após a decisão da empresa, os colegas de trabalho da empregada dispensada formaram o grupo Amazonians United Sacramento. Na segunda-feira (30), eles apresentaram uma petição ao gerente da unidade e ao departamento de Recursos Humanos da Amazon para pedir que a colaboradora seja readmitida e que os trabalhadores tenham folgas remuneradas.

O superior concordou em encaminhar o pedido. “Ele pareceu surpreso que todos os que assinaram o pedido se importaram com a situação da colega. Ela foi dispensada porque teve de ir a um funeral”, diz um empregado que estava presente.

O pedido diz que “enquanto a Amazon é uma empresa trilionária, empregados em regime de meio período que trabalham turnos de oito horas recebem apenas 10 dias de folga por ano (para todas as necessidades)”. “Isso quer dizer que, cada vez que usamos folgas não remuneradas para emergências familiares, doença ou férias estamos mais perto da rescisão.”

Orgulho de oferecer benefícios

A empresa frequentemente demonstra o orgulho de oferecer assistência médica e folgas remuneradas à equipe, mas esses benefícios são exclusivos dos trabalhadores em regime integral. E essa não é a realidade de depósitos pequenos, como o de Sacramento.

Segundo os funcionários da filial, os aproximadamente 500 contratados da unidade atuam em meio período. Com isso, trabalham menos de 30 horas semanais — assim, a Amazon não precisa oferecer assistência médica a eles (conforme estabelecido na lei).

Eles reclamam que a companhia estabelece um limite máximo de horas semanais para não ter de pagar esses benefícios. Os anúncios de vagas indicam claramente que os empregados dessas localidades trabalham entre 15 e 25 horas por semana — um contratado de Chicago diz que os funcionários são advertidos se tentam fazer mais de 30 horas semanais.

E a companhia já leva essa política a suas subsidiárias: recentemente, a Amazon cortou a assistência médica de trabalhadores em meio período da Whole Foods (comprada por ela há dois anos).

Dispensa automática

Como não têm folgas remuneradas, os colaboradores que trabalham em meio período usam a pequena cota disponível de horas não remuneradas (20 horas por trimestre). Aqueles que tiram muitas folgas ficam com “saldo negativo” e isso, invariavelmente, leva à dispensa automática.

Eles contam que a Amazon usa um programa que emite cartas de dispensa automaticamente, sem que um supervisor humano avalie as condições em que a situação ocorreu. Os empregados contam que isso afeta a capacidade deles de trabalhar em outras ocupações, lidar com emergências familiares ou mesmo se recuperar da pressão de trabalhar na companhia.

A empresa nega que as dispensas sejam automáticas e insiste que considera as especificidades de cada caso — especialmente quando os indivíduos necessitam de folgas. Além disso, a organização informa que os trabalhadores em regime de meio período recebem assistência dentária e para visão, bem como subsídio para despesas médicas (um funcionário de Sacramento disse que o valor é de cerca de US$ 10 por semana).

Ainda em sua defesa, a Amazon diz que adicionalmente às 20 horas de folga não remunerada por trimestre, os trabalhadores têm direito a três dias pagos por luto e afastamento por doença de acordo com as leis locais. Os trabalhadores, entretanto, alegam que, quando acabam as horas de folga não remunerada, as chances de dispensa são grandes.

Enquanto coletavam assinaturas para a petição, os contratados de Sacramento souberam de outra dispensa. A trabalhadora pediu três dias de afastamento para cuidar dos filhos e recebeu um comunicado de rescisão que informava que seu balanço de folgas não remuneradas era negativo. “Seu comprometimento é fundamental para que a Amazon seja a companhia mais orientada ao cliente do planeta”, dizia a nota.

Política de portas abertas

Em relação ao pedido dos profissionais de Sacramento, a Amazon comenta que “mantém uma política de portas abertas que encoraja os colaboradores a levarem comentários, questionamentos e preocupações diretamente à gerência para que sejam discutidos e resolvidos”.

Até para os empregados em regime integral a cota de folgas não remuneradas é motivo para estresse. Em julho, houve uma greve no Prime Day, mas muitos não participaram porque a empresa informou que haveria desconto das folgas. Alguns já estavam quase no limite e outros ficaram com medo de precisar do afastamento para alguma emergência. Um especialista ouvido pelo The Verge diz que essa prática pode constituir retaliação a atividade protegida.

No mercado de logística, não é comum que folgas não remuneradas sejam tratadas como benefício. Sheheryar Kaoosji, diretor-executivo do Centro de Recursos dos Trabalhadores de Armazéns (Warehouse Worker Resource Center), uma organização da Califórnia, diz que, em geral, isso é arranjado informalmente com o superior quando necessário. “Nunca ouvi falar de folgas não remuneradas até conhecer a Amazon”, conta.

Falta de flexibilidade

Aparentemente, a Amazon quantificou e sistematizou o processo. O resultado é pouca flexibilidade para os empregados que mais precisam dela: os funcionários que atuam meio período e, frequentemente, precisam ter outra ocupação. Isso sem contar o contraste com a disponibilidade que a companhia exige de seus contratados. Afinal, ela ajusta as necessidades de mão de obra à quantidade de produtos que requerem processamento — é comum, por exemplo, que envie os profissionais para casa mais cedo quando há pouco trabalho.

Para aumentar a flexibilidade, o sistema de controle de folgas deduz uma hora completa do empregado se ele chegar mais de cinco minutos atrasado. Os gerentes orientam os colaboradores a usarem os afastamentos remunerados por doença (que são autorizados na Califórnia e podem ser deduzidos em intervalos menores) para cobrir atrasos e, assim, reservar o tempo não remunerado para situações reais de adoecimento.

O emprego de mão de obra em regime de meio período deve aumentar na Amazon com a implantação da entrega no dia seguinte. Enquanto os armazéns usados para estocar itens contratam trabalhadores em regime integral, os depósitos menores, usados para tornar as entregas mais ágeis, dão preferência a profissionais em regime de meio período. Spencer Cox, um estudante de geografia econômica que trabalhou na Amazon, estima que cerca de 1/3 dos trabalhadores nessas localidades atuam em meio período.

As demandas dos profissionais não param aí. Em dezembro de 2018, os colaboradores de Sacramento elaboraram uma carta para reclamar de mudanças no desenho do depósito que passaram a causar lesões e pedir que o formato antigo fosse restabelecido. Depois, um grupo pediu uma escala mais tolerante e outras alterações. A pressão pelas folgas remuneradas é a maior ação até agora e obteve 78 assinaturas em nove dias.

A petição de Sacramento é a mais recente e foi inspirada por outras ocorrências. Trabalhadores de uma unidade perto de Minneapolis, por exemplo, têm sido bastante ativos. Eles protestam contra o aumento do ritmo de trabalho e a falta de intervalos. Os contratados de Sacramento assistiram à ação deles no Prime Day e dizem que ela foi motivadora.

Uma pesquisa com 70 profissionais da unidade mostra que 90% deles queriam ter a opção de trabalhar em regime integral. A empresa sempre apresentou desculpas quando mudanças foram tentadas, mas os participantes da ação atual estão otimistas de que, conforme o grupo de insatisfeitos cresce, as demandas ganhem mais força.